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terça-feira, 26 de julho de 2011

*Cinema e Arte* O Sorriso de Monalisa


Título original: (Mona Lisa Smile)

Lançamento: 2003 (EUA)

Direção: Mike Newell

Duração: 125 min

Gênero: Drama

Sinopse

Katharine Watson (Julia Roberts) é uma recém-graduada professora que consegue emprego no conceituado colégio Wellesley, para lecionar aulas de História da Arte. Incomodada com o conservadorismo da sociedade e do próprio colégio em que trabalha, Katharine decide lutar contra estas normas e acaba inspirando suas alunas a enfrentarem os desafios da vida.


Para variar um pouco tanto a coluna de Cinema quanto a de Arte, por que não juntar as duas? Como ainda estou pesquisando artistas sobre os quais escrever na coluna e ando super atarefada tive a idéia de falar sobre filmes maravilhosos que já assisti que falam sobre arte e/ou artistas.

Começando com ‘O Sorriso de Mona Lisa’, um filme com um clima leve para falar de coisas importantíssimas. A professora de História da Arte, Katharine Watson, interpretada por Julia Roberts, realiza seu sonho de ir dar aulas no colégio Wellesley, um renomado colégio para moças. Assim que chega, em seu primeiro dia de aulas, é obrigada a reconhecer que sua visão sobre o colégio e suas alunas era extremamente idealizada.

Em plena década de 50 é difícil para uma mulher visionária que não admite se submeter a regras baseadas na inferioridade e submissão do sexo feminino, cair dentro de uma das instituições que ajudam a preservar essa visão. Katharine então decide revolucionar não só o programa de aulas de sua disciplina, como também a visão de mundo das alunas. A professora lhes mostra como é mundo é muito mais do que jantares no horário certo para o marido e cuidar da educação das crianças, as mulheres têm tanta capacidade quanto os homens de criar, trabalhar e estudar.

Além de uma trilha sonora linda, as reflexões sobre arte e o jeito como a arte pode influenciar e modificar as relações humanas. Destaque especial para a cena em que a Srta. Watson leva suas alunas para admirar um quadro original de Pollock, e a repercussão que o trabalho do artista causa nas alunas.

“Vocês não precisam gostar, apenas admirem”

'Greyed Rainbow' - Jackson Pollock
Pintura que Katharine e suas alunas observam no filme.

A frase é tão simples, mas tão cheia de importante significado! A arte existe para ser adorada ou odiada, mas o essencial é que seja admirada. Cada artista merece ser admirado, observado e precisam de ao menos um minuto de reflexão sobre sua arte, não pelo status de ser um ‘conhecedor de arte’, mas pelo prazer de admirar a beleza que o ser humano é capaz de produzir e compartilhar, mesmo quando essa beleza não salte aos olhos.

Tomemos o exemplo da ‘Mona Lisa’ de Leonardo da Vinci, a despeito de todas as teorias em torno do significado do quadro e do enigma que representa o sorriso da moça retratada... A você, o que diz o sorriso de Mona Lisa?

*Resenha* A Pirâmide Vermelha - Rick Riordan

Sinopse

Desde a morte de sua mãe, Carter e Sadie viveram perto de estranhos. Enquanto Sadie viveu com os avós, em Londres, seu irmão viajava pelo mundo com seu pai, o egiptólogo brilhante, Dr. Julius Kane.

Uma noite, o Dr. Kane traz os irmãos juntos para uma experiência de “pesquisa” no Museu Britânico, onde ele espera para acertar as coisas para sua família. Ao contrário, ele liberta o deus egípcio Set, que expulsa-lo ao esquecimento e forças das crianças a fugir para salvar suas vidas.

Logo, Sadie e Carter descobre que os deuses do Egito estão acordando e, o pior deles – Set – tem a sua visão sobre o Kanes. Para detê-lo, os irmãos embarcam em uma perigosa viagem em todo o mundo – uma busca que traz os cada vez mais perto da verdade sobre sua família e seus vínculos com uma ordem secreta que existiu desde o tempo dos faraós.


Depois de ver tantos livros sobre o mesmo tema: vampiros, anjos e mesmo deuses gregos (tema desencadeado pela série de sucesso de Rick Riordan, Percy Jackson e os Olimpianos) é um alívio ler uma obra infanto-juvenil com um tema diferente.

Sou fã declarada da série Percy Jackson e de Rick Riordan, portanto comecei a ler ‘A Pirâmide Vermelha’ cheia de expectativa e não me decepcionei. Gosto de trazer aqui pro blog livros que realmente tragam bom conteúdo e acrescentem algo de bom para o leitor, não importando o tema ou o público para o qual o livro se dirige. Muitas pessoas não se dispõem a ler literatura infanto-juvenil por acharem que as histórias são tolas e rasas. Grande besteira! Muitos livros para o público mais jovem tem qualidade impressionante e têm o dom de ultrapassar seu público-alvo. Os livros de Rick Riordan são um ótimo exemplo desse fenômeno.

Carter e Sadie são dois irmãos que foram separados quando pequenos, Carter ficou com o pai, Julius, e Sadie com os avós maternos, que não se davam muito bem com seus pais. Por tal motivo, Sadie só vê o pai e o irmão duas vezes por ano. Em sua visita mais recente, no dia de Natal, Julius leva os dois filhos para uma pequena visita ao Museu Britânico para dar uma olhadinha na pedra de Roseta, artefato de extrema importância para a compreensão do passado do Egito. Mas essa visita não acontece de forma tranqüila, e os incidentes por ela gerados, levam os irmãos Kane, Carter e Sadie, a se unirem para lutar contra um terrível deus egípcio, Set, que tem planos de destruir e dominar o continente americano.

Além de uma narração bem construída e dinâmica, Rick Riordan nos dá uma verdadeira aula sobre os costumes e crenças do Egito Antigo, sem que a gente sequer perceba. Através das descobertas dos protagonistas, dos fatos engraçados e perigosos que os dois enfrentam, o autor vai desenredando a antiga rede da mitologia egípcia e as maravilhosas histórias imaginadas por esse povo.

Recomendo qualquer leitura de Rick Riordan para quem deseja relaxar, de divertir e aprender, tudo ao mesmo tempo!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

*Resenha* Memórias de uma Gueixa - Arthur Golden

Sinopse
"Memórias de uma Gueixa" é um romance fascinante, para ser lido de várias maneiras: como um mergulho na tradicional cultura japonesa, ou um romance sobre a sexualidade, e ainda, como uma descrição minuciosa da alma de uma mulher já apresentada por um homem. Seu relato tem início numa vila pobre de pescadores, em 1929, onde a menina de nove anos é tirada de casa e vendida como escrava. Pouco a pouco, vamos acompanhar sua transformação pelas artes da dança e da música, do vestuário e da maquilagem; e a educação para detalhes como a maneira de servir saquê revelando apenas um ponto do lado interno do pulso - armas e mais armas para as batalhas pela atenção dos homens. Mas a Segunda Guerra Mundial força o fechamento das casas de gueixas e Sayuri vê-se forçada a se
reinventar em outros termos, em outras paisagens.





Há muito tempo que eu quero ler esse livro, desde que vi o filme e descobri que era baseado num livro, assim como qualquer filme que me emociona, eu não descanso enquanto não leio a obra. Os filmes embora bem feitos, não alcançam a riqueza de detalhes e o estilo único de escrita de cada autor. Enquanto não leio o livro nunca acho que sei o bastante sobre a história que o filme retrata.


No caso de ‘Memórias de uma Gueixa’ de Arthur Golden além de emocionante, duas outras coisas chamam a atenção e são imprescindíveis de se comentar: O autor relata as memórias uma mulher de forma tão delicada e profunda que se pode acreditar que é uma pessoa de verdade expondo suas lembranças ao escritor, além da descrição interessantíssima e até inédita da vida e dos costumes das gueixas no Japão de século XX.


A pesquisa sobre o universo das gueixas pode ter se mostrado um desafio para o autor num primeiro momento pois como o autor mesmo explica em seus agradecimentos ao término do livro, ele tinha muitos conceitos errôneos sobre a vida e os hábitos de uma gueixa, e, graças a entrevistas com algumas delas que acabaram tornando-se boas amigas dele ele pôde desvendar os mistérios desse atraente e peculiar mundo de delicada beleza. Embora seus colaboradores tenham respondido suas perguntas com sinceridade muitos o aconselharam a não mostrar as coisas com tanta clareza, talvez por causa do tema complicado da sexualidade ou do lugar inferior que as mulheres ocupavam na sociedade japonesa das décadas de 30 e 40.


A narrativa, feita em primeira pessoa pela própria Sayuri, revela a delicadeza e humildade de uma mulher que passou por sofrimentos e encontrou seus próprios e arriscados meios para preservar seus sentimentos e sua felicidade. A personagem é vendida a um Okiya, lugar onde vivem as gueixas, em tenra idade sem entender muito bem o que significava tudo aquilo. Depois de diversos contratempos, ela decide que para alcançar seus objetivos de felicidade ela precisa se tornar uma gueixa, mas para realizar seus sonhos ela tem de pagar diversos preços, alguns altos demais por sua rebeldia diante do próprio destino.


Ao longo da trama você se vê tão envolvido pela meiguice, tranqüilidade e bondade da personagem que é difícil acreditar que, embora o autor relate fatos verdadeiros a respeitos das gueixas de Gion dos anos 30 e 40, seus personagens são fictícios. É possível sentir e até acreditar que estamos ‘ouvindo’ os relatos difíceis e emocionantes de uma mulher de verdade.
Leitura absolutamente recomendada para quem se interessa pela história das mulheres e do Japão e quem gosta de uma boa narrativa de memórias.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

'Os sofrimentos do jovem Werther' - Johann Wolfgang Goethe

Sinopse

A literatura alemã divide-se em antes e depois de Os Sofrimentos do Jovem Werther, que chega às livrarias brasileiras nesta nova e brilhante tradução de Marcelo Backes.Ao escrever Werther, em 1774, Johann Wolfgang Goethe alcançava sua primeira obra de sucesso e, de quebra, dava início à prosa moderna na Alemanha. Werther não é, simplesmente, um romance em cartas assim como Nova Heloísa de Rousseau ou Pamela de Richardson. Esta que é uma das mais célebres obras de Goethe é o romance de uma alma, uma história interior. Dilacerante, arrebatada é a história de uma paixão literalmente devastadora. Com enorme repercussão quando do seu lançamento, Werther foi um testemunho de como a literatura tinha poder de agir na sociedade. Não foram poucos os suicídios atribuídos ao romance. Johann Wolfang von Goethe nasceu em Frankfurt em 1749 e morreu em Weimar em 1832. Poeta, romancista, dramaturgo, crítico, estadista, tornou-se um dos maiores vultos do pensamento alemão, tendo influenciado várias gerações. Em 1775, a convite do Duque Carlos Augusto, foi administrador de Weimar, onde destacou-se brilhantemente como administrador, financista e estadista. Deixou vasta obra, onde se destacam, entre outras, Werther, Ifigênia, Elegias Romanas (poesia), Fausto, Teoria das Cores, Viagem à Itália, Poesia e Verdade.




“Não sou o único: todos os homens estão sujeitos a sofrer dores e desilusões, e ver seus sonhos frustrarem-se.”
Werther, pág. 101




Quem conhece um pouco a história desse livro sabe que um dos fatos ‘curiosos’ e aterradores em volta dele é que, à época de seu lançamento no século 18, causou uma onda de suicídios entre multidões de leitores, absolutamente identificados com o jovem Werther.



Gostei muito do livro apesar da tristeza e do desespero alucinado do personagem. Acredito que a capacidade de se identificar com um personagem ou com um sentimento que uma obra transparece é um dos determinantes de sucesso e apreço de um livro. O tema é muito complicado e controverso e acredito que identificação de fato seria no mínimo preocupante.



A taxa de suicídio no Brasil, dentre as três causas de morte violenta, foi a que mais subiu (17% na população total e na faixa etária de jovens entre os 15 e os 24 anos) no período de 1998 a 2008. Entre os índices mais elevados de suicídio encontram-se muitas áreas de assentamentos indígenas, como em Amambaí e Paranhos, no Mato Grosso do Sul, que são o topo da lista de suicídios da população total e Dourados no mesmo estado e Tabatinga, no Amazonas, que lideram a lista da população jovem, segundo o Mapa da Violência/2011, divulgado em fevereiro. Contudo, em comparação com outros países o nível de suicídios no Brasil é considerado baixo, ocupando a posição de número 73 na lista dos 100 países pesquisados, com o índice de 4,9 suicídios a cada 100 mil habitantes.



Apesar das estatísticas e do perigo de uma identificação exageradamente apaixonada como aconteceu quando o livro foi lançado, a própria história que inspirou ‘Os sofrimentos do jovem Werther’ (história real acontecida com o próprio Goethe, que se apaixonou por Charlotte Buff, que já estava comprometida e se casou com outro) mostra o outro caminho do sofrimento. Caso Goethe tivesse sucumbido do mesmo mal de seu intenso Werther, o mundo e a Alemanha teriam sido privados de obras como Fausto, Ifigênia e das cartas intensas e melancólicas do jovem Werther.



É impressionante a intensidade, subjetividade e cuidado da descrição, nas cartas do personagem ao amigo, como um jovem de espírito livre, intenso e com imenso apreço pela vida, a natureza e as pessoas sensíveis, vai se eclipsando e sendo engolfado pela iminência de uma decepção profunda: ver a pessoa amada se juntar a outra. A diferença das primeiras cartas para o período em que o noivo da doce Lotte retorna a cidade vai radicalmente se pronunciando a ponto de o jovem sensível e apaixonado de antes se tornar um pobre atormentado por todo e qualquer acontecimento infeliz ligado diretamente ou não a sua vida.



A leitura não é difícil, mas chega a ser aflitiva quando, se aproximando do clímax final o leitor sabe o que está por vir e alguns dos personagens também o sabem, mas espera e até deseja que haja um imprevisto, talvez alguma intervenção inesperada. Em livros assim, envolventes e intensos, é impossível deixar de torcer para um final diferente e acho que é isso que mantém um clássico: a leitura que se renova e provoca quem lê.



“A natureza humana – continuei – é limitada: podemos suportar a alegria, o sofrimento, a dor, mas só até certo ponto; quando ele é ultrapassado sucumbimos. Portanto, aqui não se trata de sabe se um homem é forte ou fraco, mas se é capaz de suportar a medida de seu sofrimento, seja moral ou físico. Considero tão absurdo dizer que um homem é fraco porque se mata quanto chamar de covarde aquele que morre de uma febre maligna.”
Werther, pág. 63




Fontes que ajudaram a escrever essa resenha:



domingo, 24 de abril de 2011

*Resenha* Minha Vida de Menina - Helena Morley

Sinopse


Muito mais do que o diário de garota de província no final do século XIX, Minha Vida de Menina antecipa a voga das histórias do cotidiano ao traçar um retrato vital e bem-humorado do dia-a-dia em Diamantina entre 1893 e 1895.

Publicado pela primeira vez em 1942, o livro é um painel multicolorido daquele momento histórico singular no Brasil, com o sabor e a vivacidade de um diário de adolescente.



Helena Morley era o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant. Nascida em 1880 em Diamantina, Minas Gerais, Alice escreveu um diário durante seus anos de infância e adolescência, retratando uma época onde a escravidão acabara de ser abolida e os primórdios da República. Com uma linguagem sincera e divertida ela descreve o processo de inovações tecnológicas e a vida na mineração e retrata a formação de uma mulher, seus gostos, personalidade e as relações com a família e amigos.


O livro é muito bom de se ler. Me identifiquei muitas vezes com os pensamentos de Helena, afinal de contas é o diário de uma menina se transformando em mulher e, mesmo se passando entre os anos de 1893 e 1895 (há mais de um século atrás), acredito que certas coisas nas infância e na adolescência, sobretudo na formação e na cabeça de uma garota que continuam as mesmas ou ao menos parecidas.


Incentivada pelo pai a escrever seus pensamentos em um caderno, Helena conta histórias engraçadas e tristes do cotidiano, conta coisas que não conta a mais ninguém, a não ser talvez sua avó, e as relações entre os amigos e a família, regida pela matriarca, Teodora. As festas religiosas e o racismo cordial estão muito presentes em seus relatos, já que fazia parte de uma família extremamente católica e de ter presenciado a época em que a ‘Lei Áurea’ de 13 de maio libertou os escravos.


Terna, vivaz e inteligente, a despeito da opinião da autora sobre si mesma, a escrita de Helena despertou dúvidas sobre a idade da autora ao escrever os diários. Guimarães Rosa, suspeitando de que tenham sido redigidos já na maturidade da autora, contestou que não conhecia em nenhuma outra literatura “mais pujante exemplo de tão literal reconstrução da infância”.
Na minha opinião a vida de menina de Helena Morley enquanto era de fato uma menina e que tal valor literário e histórico se deve a um talento nato para a escrita e concordo com a afirmação de uma querida professora minha de que ela poderia ter sido a Jane Austen brasileira, se houvesse tradição feminina na nossa literatura.



*Mais*


Estou escrevendo uma coluna para o blog Bookworms sobre literatura comparativa. Comparando clássicos (conhecidos ou não) com livros mais atuais ou leves, como forma de nos aproximar dos clássicos sem medo ou receio. No post de estréia, comparo ‘O pardal é um pássaro azul’, de Heloneida Studart, e ‘Minha Vida de Menina’, de Helena Morley.
Vale a pena conferir!












sexta-feira, 15 de abril de 2011

*Resenha* Resistência (A história de uma mulher que desafiou Hitler) - Agnès Humbert

Sinopse

Mistura de diário e memória, Resistência foi publicado pela primeira vez em 1946 e é um relato surpreendentemente bem-humorado e irônico de Agnès Humbert. Após a invasão dos alemães em Paris, Agnès, historiadora da arte, resolve fundar junto com seus colegas do museu o primeiro movimento de resistência na capital francesa. Agnès e seus amigos faziam o que podiam: convocar pequenas greves estratégicas, retirar as moedas de circulação, distribuir um pequeno jornal que informava todas as ações do movimento e suas conseqüências. Até que os alemães a prenderam e a levaram para um campo de concentração. Lá os horrores da guerra a atingiram em cheio. Agnès decidiu resistir mais uma vez. E conseguiu.

Resistência é o testemunho vivo de uma época e suas questões, o depoimento pessoal de uma mulher forte que sempre soube que estava do lado da vida e da liberdade.




"Albert Camus escreveu: “Bem aventurados os de coração flexível pois eles nunca se partirão”.


Mas eu me pergunto... Se não se partir não haverá cura. E se não houver cura não há aprendizado. E se não houver aprendizado... não haverá luta. Mas a luta é uma parte da vida, então, todos os corações devem se partir?” Lucas Scott – One Tree Hill – 5ª temporada.


Achei muito difícil começar a falar desse livro. Não porque não gostei ou porque foi difícil de ler, e sim por causa da temática. Seria muito simplista dizer que amei o livro (o que não deixa de ser verdade) e, de fato, gostei tanto que comecei a me indagar o porquê de tanta fascinação.

Pra começar o livro é o diário de Agnès Humbert, uma historiadora de arte que, inconformada com a ocupação nazista na França em 1940, funda com seus amigos um dos primeiros grupos da Resistência francesa. O diário que oficialmente vai de junho de 1940 até 13 de abril de 1941, retrata o cotidiano de Agnès e como ela decidiu fazer alguma coisa a respeito do grande veneno que maculava sua França na época: o Nazismo. Dona de um humor praticamente inabalável, humilde e generosa, porém forte, Agnès foi impossibilitada de escrever após ser presa em 15 de abril de 1941 (mal podia se alimentar quanto mais escrever). Com a ajuda de uma memória invejável, após ser libertada em 1945 põe-se imediatamente a escrever, também em forma de diário, sua vida, seus pensamentos, as pessoas que conheceu durante sua pena de 5 anos de trabalho forçado na Alemanha.

Assim como nos tocamos com a história de Anne Frank, também a de Agnès Humbert nos coloca em posição muito frágil, com suas semelhanças com a primeira (a luta contra o terror nazista narrada através de um diário) e com suas diferenças também. Agnès sobreviveu a essa época negra da história depois de quase 5 anos de humilhação, doenças não tratadas, dor moral e física, fome e condições sub-humanas de vestimenta e trabalho. Ela resistiu e apesar de ter fraquejado algumas vezes (humana como todos nós) ela não permitiu que levassem além de sua liberdade, seu gosto pela vida, sua crença no ser humano, sua força de vontade e capacidade de ver a beleza onde os distraídos e endurecidos pela dor e pelo tempo vêem somente o horror.

Isso tudo me leva à citação do inicio desta resenha e aos meus motivos para admirar esse livro. Gosto de pensar que não nos atraímos ou no interessamos pela história dos outros somente quando esta mostra horror extremo, tristeza, dor ou humilhação. Claro que histórias assim nos inspiram a valorizar o que temos e quem somos ou mesmo rever nossos valores, só que, como a própria Agnès exemplifica com toda a sua vida e sua luta e como Che Guevara sabiamente disse: Há de endurecer sem a perder a ternura. É importante conhecermos histórias assim para que façamos o que for possível para que não se repitam, mas também é essencialmente necessário procurar a beleza, as coisas boas, os exemplos de felicidade para que a vida não tenha só o lado ruim, mas que seja feita de um equilíbrio entre a felicidade e a tristeza, entre o ideal e a realidade, ás vezes injusta. Não nos deixemos cair nesse poço sem fundo de horror e dor, caindo assim no erro de que a vida tem só coisas ruins a nos oferecer. Não deixemos que o melhor de nós pereça por falta de atenção ou de uso. Todo dia é uma oportunidade pra que as coisas sejam melhores, não é preciso chegar ao fundo do poço pra decidir fazer alguma coisa a esse respeito.


“Você sabe aquela visão romântica de que todo o lixo e dor é na verdade terapêutica e bonita, e até poética? Não é verdade. É apenas lixo , e apenas dor. Você sabe o que é melhor? Amor. O dia em que você começar a achar que o amor é supervalorizado, é o dia em que você estará errado. A única coisa errada sobre o amor, a fé e a crença... é não tê-los.” Haley – One Tree Hill – capítulo 18 da 5ª Temporada.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

*Resenha* A Vida Secreta das Meninas - Sharon Lamb

Sinopse

Este livro revela dois aspectos da vida das meninas que elas tentam manter em segredo: a sexualidade e a agressividade. Como resultado de mais de 120 entrevistas fascinantes com pré-adolescentes e mulheres adultas, o livro revela o que se passa com as meninas quando se sentem em liberdade e longe dos olhares de um adulto: travessuras, brincadeiras sexuais e comportamento agressivo.








O que é uma ‘boa menina’?

Aposto que vem à sua cabeça, quando ouve essa expressão, alguém parecida com a personagem de Jamie Sullivan, do livro Um ano inesquecível (que foi transformado em filme com o nome Um amor para recordar), certo? Ou alguém como a Grace da trilogia Os lobos de Mercy Falls? A irmã mais velha de Elisabeth Bennet, Jane, em Orgulho e Preconceito? Até mesmo a Nora da série Hush Hush... São garotas doces (até certo ponto como sabemos), que obedecem aos pais, são calmas, recatadas, cumprem com suas obrigações se importam com os outros, são femininas, um pouco indefesas... São ‘boas’.

Garotas como Katherine, de Diários do Vampiro, Carmen, da ópera de Bizet, a Duquesa de Merteuil, de As Ligações Perigosas e a pequena e diabólica Lolita de Nabokov são os perfeitos exemplos de meninas más. São maldosas, intensas, interesseiras e principalmente, sexuais e agressivas.

Sharon Lamb no maravilhoso “A Vida Secreta das Meninas”, diz que ao cultivarmos e difundirmos imagens como essas:de que meninas boas são calmas, não têm raiva, que acham que a sexualidade é algo a ser temido e escondido estamos obrigando as meninas e mulheres da nossa sociedade a uma vida em busca de algo que não existe, a perfeição. A idéia de que com as meninas não combina o comportamento agressivo e sexual é completamente errada. A agressividade e a sexualidade são aspectos do ser humano, e não características do sexo masculino.


“Os meninos de nossa cultura têm mais liberdade para realizar atividades transgressoras. Dentro de certos limites, são livres para explorar, para sentir raiva, para experimentar; são livres para ser sexuados, ávidos, insultuosos e pura e simplesmente maus. São restringidos de outras maneiras, muito provavelmente tão perniciosas quanto as que limitam as meninas, mas têm permissão para manifestar sua raiva, sua agressividade. A culpa que as meninas sentem quando realizam esses atos absolutamente humanos é tão intensa que as obriga a se reestruturarem de uma forma que despreza aspectos importantes de sua experiência. Elas precisam, tanto quanto os meninos, quebrar as regras de vez em quando, ser desordeiras, bancar que são importantes e sentir sua sexualidade – nada disso é contrário ao conceito de boa menina, e devemos fazer o possível para dizer isso a elas.”(pág. 249)
Acredita-se que uma mulher com raiva é pior do que muitos homens. E de onde vem essa comparação? Por que a raiva das mulheres é vista como algo surpreendente? Por que a raiva é vista com um sentimento essencialmente masculino?


“Sempre que falamos sobre a raiva das meninas, a conversa quase sempre se voltou para suas manifestações extremas: meninas que matam, meninas que explodem, meninas que não conseguem controlar sua raiva. (...) Hoje elas estão com medo demais de sua própria raiva e a sentem como uma força estranha. O objetivo dos pais e dos educadores deve ser o de cultivá-la, compreendê-la e até de aprofundá-la no caso de muitas meninas, antes mesmo de uma atitude de “não ligar” ou de alguma confrontação. Não fazemos menos com outras emoções. Mas o nosso medo de dar ouvidos à raiva das meninas e grande demais”(pág. 265)
A agressividade ‘secreta’ das meninas pode estar relacionada com a vontade de sentir que ela está no controle, está no poder. E quem pode condenar isso? Quem não gosta de se sentir no comando? Madonna, um ícone de liberação e poder feminino, disse: “É maravilhoso ter poder. Lutei por ele a vida inteira”.
“Hoje o poder é visto como algo bom, mesmo entre as feministas, em parte por causa da expressão “investido de poder”, no sentido de dar conta da própria influência pessoal no mundo, assumindo uma postura ativa em relação aos problemas e lutando contra a própria opressão. Mas há um lado sombrio. Enquanto não aceitarmos o lado sombrio das mulheres e das meninas, inclusive nossa própria agressividade, nossa raiva e nosso desejo de competir, assim como de dominar, vamos perpetuar o mito da boa menina e boa mulher que tanto nos oprimiu durante séculos. Embora as mulheres e meninas tenham de encontrar um caminho para usar a imagem da boa menina em proveito próprio, quando fazem isso escondem esse aspecto sombrio do eu que pode ajudá-las em muitas circunstâncias.” (pág. 286)
E se, ao invés de continuarmos pregando o mito da ‘boa menina’, resolvermos ensinar as meninas (e por que não as mulheres?) a administrarem sua raiva de forma saudável em proveito próprio, de outras meninas e mulheres e da própria sociedade? As meninas não precisam mais ter uma vida secreta. Nós podemos e precisamos admitir a raiva e a sexualidade como parte do que somos e também como um direito que temos enquanto seres humanos. Uma garota que é capaz de aceitar-se como um ser sexual, ao invés de pensar sempre no prazer do outro, vai crescer de forma saudável se vendo como ser que deseja e não como um mero objeto do prazer masculino. Uma menina que é capaz de aceitar que pode sentir raiva sem deixar de ser uma pessoa boa é alguém que vai saber se defender quando for preciso e que não vai fazer o papel de vítima a vida inteira como tantas outras desde que o mundo é mundo.

Enxergar o que é ‘bom’ em coisas diferentes é muito bom. Carmen pode ser tão boa quanto Jane, sua energia e capacidade de lutar e se manter fiel aquilo que quer e deseja é tão louvável quanto a amabilidade de Jane. Sendo assim, além de considerar o livro maravilhoso acho que é de utilidade pública. Todo mundo deveria conhecer A Vida Secreta das Meninas.

quarta-feira, 30 de março de 2011

*Resenha* Precisamos falar sobre o Kevin

Sinopse

A partir de um crime brutal, este best-seller mundial discute maternidade e casamento, família e carreira.Eva Katchadourian na verdade nunca quis ser mãe - muito menos a mãe de um garoto que matou sete de seus colegas de escola, uma professora queridíssima, e um servente de uma escola dos subúrbios classe A de Nova York. Para falar de Kevin, 16 anos, autor desta chacina, preso em uma casa de correção de menores, a escritora Lionel Shriver arquitetou um thriller psicanalítico onde não se indaga quem matou. A trama se desenvolve por meio de cartas nas quais a mãe do assassino escreve ao pai ausente. Nelas, procura analisar os motivos da tragédia que destruiu sua vida e a de sua família.Dois anos depois do crime, ela visita o filho regularmente. Aterrorizada por suas lembranças, Eva faz um balanço de sua trajetória onde analisa casamento, carreira, família, maternidade e o papel do pai. Assim, constrói uma meditação sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influencia e responsabilidade na criação de um pequeno monstro.Ao relembrar o passado, reexamina desde o seu medo de ter um filho ao parto do bebê indócil que assustava as baby-sitters. Mostra o garoto maquiavélico que dividia para conquistar. Exibe o adolescente que deixava provas de péssima índole. "Precisamos falar sobre o Kevin" cria polêmicas ao analisar as sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série ou pitboys. Estimula discussões sobre culpa e empatia, retribuição e perdão nas relações familiares, e nos leva a debater uma questão tenebrosa: poderíamos odiar nossos filhos?



‘Precisamos falar sobre o Kevin’ é uma sugestão assustadora, odiosa, nua e crua e... tremendamente brilhante! Lionel Shriver é uma autora surpreendente, nos leva para dentro da mente de uma mãe inicialmente atormentada pela iminência da suposta falta de amor pelo filho, Kevin, e depois, depois dos sinais óbvios e dos implícitos, tem de lidar com o fato de que ele, pouquíssimo tempo antes de completar 16 anos, é o responsável por matar 7 de seus colegas de escola, uma professora e um funcionário.


Kevin Katchadourian, conhecido como “KK” depois de seu ‘episódio’ na escola, é um adolescente que não gosta de nada, não aparenta sentir nada a não ser enfado, cuja mente além de inacessível é tremendamente sombria. Ele não sente remorso pelo que fez, pelo contrário, se orgulha, e dá todos os sinais de ser o modelo perfeito de psicopata (pessoa que sofre de um desequilíbrio patológico no controle das emoções e dos impulsos, que corresponde freqüentemente a um comportamento anti-social).


Não seria esse o tipo mais de difícil de filho para se amar?


Essa é uma das questões que mais atormentam Eva Katchadourian: a dificuldade – ou a ausência de amor por Kevin. O livro é no formato de cartas de Eva para Franklin, o pai de Kevin, através das quais ela aborda sua vida, suas realizações, como se conheceram, seu casamento, a concepção um tanto indesejada de Kevin e sua infância e adolescência até a fatídica quinta-feira, data de seu atentado à la Columbine. O assunto do livro é muito delicado devido a crueza dos fatos, o horror de contemplar alguém que é capaz de ultrapassar – e ridicularizar – todos os limites que nos mantém civilizados e que reprimem nossos impulsos destrutivos, principalmente quando acontecimentos desse tipo envolvem ‘crianças’. Nos EUA, junto com os atentados terroristas, esse é um dos grandes e temíveis tabus: os massacres nas escolas, onde adolescentes marginalizados pela ‘hierarquia’ estudantil, cansados do bullying, decidem que a melhor saída é matar alguns de seus companheiros e/ou professores, como forma de se vingar do sistema, da sociedade ou da injustiça da vida. Tudo isso é bem chocante por si só. A realidade de que crianças entre 11 e 17 anos se vêem em turbulências emocionais e pressão cruel e desmedida tão grandes que vêem como única solução o mais drástico, desumanizador e violento ato de ‘redenção’.


Isso, visto pelo prisma da mãe do ‘responsável’, que se responsabiliza de certa forma pelos atos do filho, dividindo-se a vida inteira entre amor forçado e ódio por ele, em uma escrita crua e ao mesmo tempo repleta de sentimento de uma mãe para um pai, só pode resultar num livro cativante, aflitivo, e admirável. E com direito a um final no mínimo espantoso.